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Criado por céticos, radicado no pragma, exilado na poesia.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Compósito


Eu penso muito.
Eu escrevo quase nada.

Sou belo na alma.
Sou filho da puta.

Sonho com a revolução.
Sonho o sonho burguês.

Vivo a ânsia nas atitudes.
Vivo o tédio no coração.

Estou alegre de dia na rua.
Estou triste de noite no colchão.

Vivo de noite, morro de dia.
Vivo do dia, morro na noite.

Eu Sou Sonho Vivo Estou Vivo

Ernesto Molinas

28/02/2007

Vivo?


Se o canto fosse espanto
E o fomento remetesse o tormento
Da sangria desvelada.

Seria eu apenas uma pobre criatura
Amadora dos sentimentos extremos?!

Seria a cética expressão da realidade!
Um interior de dureza impenetrável
Me arranharia a pele e as tripas.

O sofrimento seria, então, a razão de meu canto;
Um melancólico estribido emitido em vã louvação.

A luta travada entre trancos e retorcimentos
Inundaria meu ser de imaculada luminosidade.

A dor é a mais bela e absoluta prova
De que estamos vivos.

Ernesto Molinas

06/01/07

Alipinho


Naquela noite de terra arrasada,
Na noite da alma sebosa,
O terror se opunha a melancolia
Como os porcos a insônia.

Malogrado, com véu e grinalda,
Morrera enforcado Alipinho.
Em certo livro de Nelson Rodrigues
O sangue e a repugna faziam o caldo.

Caldo de cultivo para a insanidade,
O são reconhecimento da realidade.
Vias de difusão de um pensamento
Mal acabado, não absorvido.

O câncer que matara seu pai
É o mesmo que corrói hoje
O abominável nexo do senso-comum.

Que a forca me mate
Antes que este câncer à sociedade.

Ernesto Molinas

30/11/06

A Noite


Um encontro inesperado com a morte
Traria-me respostas às perguntas
Que penso jamais responder.

Um copo trincado me corta os lábios
Como a mais afiada das críticas
Não o pode fazer.

A jovem dama a quem clamo me empena a consciência
Como o mais existencial dos livros
Não pode torcer.

O cansaço me causa uma ebriedade
Que o álcool seria incapaz de prover.

O tédio me destrói a mente de maneira intensa
Como o Alzheimer não poderia comer.

O tempo gasta minha existência
Como a felicidade não seria capaz de entreter.

Esta inútil declaração toma meu tempo
Como a responsabilidade não conseguiria absorver.

A noite caída me traz a realidade à tona
E me lembra que não é hora de sonhar
E sim de viver.

Ernesto Molinas

12/09/2006

Alienando-me


O tédio de hoje perfura minhas veias,
Atinge o âmbito de minha inconsciência,
E assim, serve de combustível fulgurante
Para um baile de cálidas chamas que
Incinera, uma a uma, minhas pobres virtudes.
Que agora, em cinzas frias e pálidas,
Fertilizam eterna e inutilmente
Um mar sem fim de alienação.

Que a rude sina fraudulenta
de minha musculatura cansada
se deleite com o insólito sabor
do líquido cor de âmbar,
e que esta seja contemplada
dês das velhas e podres tripas
da sociedade doentia que exala
os meus pensamentos;
o seu aroma.

Que o espectro de Pessoa nos traga o desassossego.

Ernesto Molinas

12/09/2006